História não é matemática. E historiador não é vidente.

O Brasil sofre de uma pobreza intelectual sem tamanho. Há muito tempo o Brasil se tornou um país politicamente maniqueísta: ou se é “de esquerda” ou “de direita”. E extremismos e paixões sempre distorcem ideias e conceitos.

Mesmo após as eleições, uma ideia que ainda reverbera nas redes sociais – até mesmo com apoio de parte da imprensa brasileira e internacional – é de que o Brasil será a nova pátria do “fascismo”. E Bolsonaro um novo Hitler. Embora o discurso do presidente eleito realmente seja preocupante em muitos aspectos, comparar o Brasil atual com a República de Weimar é um anacronismo sem igual – assim como usar os termos “fascismo” e “fascistas” para designar tanto um governo de Bolsonaro quanto seus seguidores/eleitores.

Em nenhum grau, o Brasil de hoje lembra o caos instaurado na Alemanha logo após a derrocada germânica na Primeira Guerra. A comparação com Hitler é ainda mais esdrúxula. Ao longo da história, preconceito e linguagem militar para solução dos problemas de uma nação não foram exclusividade apenas do Führer alemão. Lênin, o líder bolchevique tão idolatrado mundo afora por socialistas, tinha um discurso tão sanguinário e virulento quanto o de Hitler (“exterminar” e “fuzilar” eram verbos comuns na língua do pensador russo), e o regime político que ele criou foi tão malévolo quanto o nazismo (estima-se em 100 milhões o número de pessoas assassinadas em regimes comunistas). Assim, fazer comparações e encontrar paralelos no passado é sempre perigoso.

Parte dessa retórica de anacronismos tem origem no determinismo marxista. Ocorre que história não é matemática. É uma ciência humana, e como tal é caótica. A história não se repete como afirmava Karl Marx, embora, sim, os exemplos do passado sempre sirvam de lição. O historiador não é vidente ou adivinho; não pode prever o futuro. Mesmo tendo pesquisado o passado, o máximo que ele consegue é entender melhor o presente. E isso por si só já é um exercício gigantesco.

Rodrigo Trespach
historiador, escritor, autor de onze livros
rodrigo.trespach@gmail.com

Artigo publicado em Zero Hora, 22/11/2018, p.29.

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