Genealogia: uma viagem fantástica

A genealogia pode não ser bem vista pela academia ou pelos historiadores, mas é certo que ela ganha cada vez mais adeptos entre gente comum que deseja conhecer seu próprio passado, independente de quem seja o parente distante. Afinal, saber quem somos e de onde viemos são, talvez, as perguntas mais antigas feitas pelo homem.

Por Rodrigo Trespach

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A grande maioria começa suas pesquisas por simples curiosidade, mas não demora a perceber que a genealogia se torna quase que um vício, pela simples razão de ser quase impossível alcançar ou conhecer a totalidade de nossos ancestrais, o que desperta e aumenta a curiosidade: nossos pais são dois, os avós quatro, os bisavós oito, mas em dez gerações o número de parentes diretos sobe para mais de mil. É fácil chegar a conclusão que, em menor ou maior grau, somos todos parentes.

Principalmente depois da década de 1990, com a popularização da internet e as facilidades que os novos softwares dispõem, um público cada vez maior se conecta a grande rede em busca de informações sobre seus ancestrais e história familiar e descobre que quase todo mundo não deixa de ser parente.

O maior banco de dados genealógico do mundo pertence ao FamilySearch, uma organização sem fins lucrativos vinculada à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – os mórmons, com sede em Salt Lake City, Utah, nos Estados Unidos. Fundada em 1894, como Sociedade Genealógica de Utah, FamilySearch, segundo a própria definição da organização, “dedica-se à preservação de registros da família humana” e a “ajudar as pessoas a conectar-se com seus antepassados por meio de fácil acesso aos registros históricos”.

Por trás do interesse histórico está uma questão religiosa: os mórmons acreditam que os antepassados podem ser redimidos dos pecados pelo batismo, mesmo depois de mortos. Para que isso ocorra, porém, eles devem ser devidamente identificados. Desta forma, FamilySearch juntou nada menos do que 3 bilhões de nomes no banco de dados on-line do grupo, que atua em 100 países, tem mais de 121 mil colaboradores e mais de 4.700 Centros de História da Família.

Os registros paroquiais de batismo, casamentos e óbitos, que os mórmons digitalizam e dispõe gratuitamente em seu gigantesco banco de dados, começaram a ser organizados com o Concílio de Trento (1545-1563), que estabeleceu a obrigatoriedade quanto aos registros de nascimento para os católicos. Naquela época, pós-Reforma Protestante, a disputa por membros tornou necessária a identificação dos fiéis e a contagem e os registros passaram ser uma obrigação dos padres e pastores da cada cidade europeia.

 Estes primeiros registros ainda não apontavam os sobrenomes, somente os nomes. Em sua maioria nem o nome da mãe da criança batizada era informado – não raros, eram anotados pelo padre ou pastor apenas o nome da criança e do pai: “João, filho de João”. O uso do sobrenome como identificação familiar surgiu um pouco depois, mas não havia ainda uma obrigação quanto à hereditariedade, como hoje.

Registro batismo Peter Borger 2

Também contribuíram para o aparecimento do que chamamos hoje de registros genealógicos, o crescimento populacional gradativo nos centros urbanos, onde apenas os nomes próprios já não eram mais suficientes para distinguir as pessoas. O surgimento das disputas quanto ao direito de sucessão (de terras e bens) – era preciso algo que indicasse vínculo com o dono da terra, para que os filhos ou parentes pudessem adquirir a terra, já que qualquer pessoa com o mesmo nome poderia tentar se passar por filho, foi outro fator importante.

Com o uso cada vez mais difundido dos documentos e a necessidade de deixar registrados todos os atos políticos, econômicos e religiosos da sociedade moderna, identificar com exatidão as pessoas passou a ser de importância capital. Surgiram os sobrenomes! E eles não eram nada mais do que simples apelidos ou alcunhas, daí que os sobrenomes indicam geralmente características físicas, lugares de origem e as profissões dos primeiros portadores. E cada povo ou país adotou uma forma de transmiti-los de geração em geração. As famílias alemãs, por exemplo, mantêm o sobrenome paterno em evidência, enquanto na Península Ibérica o sobrenome do pai era privilégio dos primogênitos enquanto as mulheres recebiam nomes santos.

Durante o século XVI o uso dos sobrenomes havia se tornado popular e não era mais exclusividade da nobreza. Para qualquer fim, seja religioso ou civil, o cidadão comum poderia então comprovar por meio de documentos o pertencimento a uma determinada família. É por isso que a maioria das pessoas hoje consegue rastrear, com relativa facilidade, ancestrais até a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e alguns, com um pouco mais de dificuldade, até a Reforma Protestante (1517).

Os mórmons se especializaram em armazenar os registros, sejam católicos, protestantes ou civis, mas foi MyHeritage a responsável pela criação de um dos mais avançados e criativos programas de genealogia do mundo, o Family Tree Builder. O programa, gratuito e já na sétima geração, substituiu o Personal Ancestral File de FamilySearch como a mais popular ferramenta genealógica. Em 2013, uma parceria entre as duas gigantes resultou em um banco de dados de mais 5 bilhões de registros históricos, 1,5 bilhões de perfis, 75 milhões de usuários e 27 milhões de árvores genealógicas em todo o mundo.

Criada em 2005 pelo israelense Gilad Japhet, um especialista em pesquisas na área de combate aos vírus de internet, MyHeritage se especializou no desenvolvimento de programas de genealogia. Juntas, as duas paixões de Japhet, a internet e a genealogia, possibilitaram a criação de mecanismos com capacidade de reconhecimento de pessoas idênticas em árvores genealógicas distintas, a identificação automática de registros históricos associados aos antepassados da árvore e o armazenamento de dados de DNA, entre outras curiosidades disponibilizadas ao usuário. Mas opções não faltam, além do FBT 8.0 há o GenoPro, o  Legacy Family Tree e o Family Tree Maker, entre outros.

Os programas possibilitaram a criação, armazenamento e organização de imensos bancos de dados particulares, independente das grandes empresas. Alguns genealogistas chegaram a um número incrível de nomes e dados sobre cidades populações ou grupos de imigrantes. É o caso do trabalho do genealogista gaúcho Luiz Antônio Alves. Autor de trabalhos monumentais sobre genealogia, Alves relacionou nada menos do que 739.456 descendentes do cacique tupiniquim Tibiriçá, de papel importante na fundação de São Paulo, em 1554. E entre eles estão personagens tão distintos como o Padre Diogo Antônio Feijó, Luiz Carlos Prestes, Prudente de Moraes, Getúlio Vargas, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Osvaldo Aranha, Marta Suplicy e Anita Garibaldi. Já os descendentes que o paulista Francisco Brito Peixoto, fundador de Laguna, em Santa Catarina, teve com uma “índia carijó” – ou com várias índias, não se tem certeza, já que os registros não apontam nomes – seriam mais de 67 mil, entre eles quem está escrevendo o que você lê agora.

E não é preciso ser um expert em genealogia para encontrar antepassados ou cruzar com um parente inusitado usando as novas tecnologias. Recentemente, com auxílio de Japhet e de MyHeritage, uma repórter do New York Times conseguiu rastrear o paradeiro de herdeiros das obras de arte francesas roubadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial acessando árvores genealógicas on-line, os registros de mortos em Auschwitz e outras listas disponíveis pela internet. Também graças à genealogia, pesquisadores como Ray White e Nancy Wexler conseguiram identificar os genes causadores da fibrose cística e os da síndrome de Huntington. White após pesquisas nos arquivos dos mórmons em Utah e Wexler, filha de uma portadora da síndrome de Huntington, após exaustivo levantamento genealógico em famílias do lago Maracaíbo, na Venezuela. Nestes dois últimos casos, a genealogia tradicional foi fundamental para entender outra genealogia, a genética.

As mutações do DNA do Haplogrupo R até o R1b1b2

Os exames de DNA estão ficando cada vez mais comuns, principalmente depois que a National Geographic Society e a IBM criaram o Projeto Genográfico, cujo objetivo é realizar análises de amostras de DNA em centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo, incluindo representantes de populações nativas, e mapear o histórico do povoamento da Terra. O maior centro de pesquisas, também com o maior banco de dados, é o laboratório Family Tree DNA, em Houston, Texas, nos Estados Unidos. Até o início de 2014 esse laboratório já tinha realizado mais de 672 mil exames. O projeto montou dez laboratórios em todo o mundo com a missão de realizar os testes. No Brasil o laboratório se encontra na Universidade Federal de Minas Gerais, no Instituto de Ciências Biológicas, sob a coordenação do Prof. Fabrício Rodrigues Santos.

O banco de dados do Projeto Genográfico, que abrigará uma das maiores coleções de informações genéticas acerca da população humana jamais reunida, servirá como fonte de pesquisa sem precedentes para geneticistas, historiadores, antropólogos e genealogistas. Segundo o site do laboratório norte-americano há mais de 7,8 mil sobrenomes listados. Um número pequeno se comparado ao banco de dados genealógico tradicional de FamilySearch/MyHeritage, mas a uma forte razão para crer que esse número aumente consideravelmente no futuro: a publicidade em torno das pesquisas e as fantásticas descobertas recentes são um estímulo para que pessoas comuns também façam parte da história da humanidade. E juntas, a genealogia tradicional e a genética, contribuem com a História nos estudos sobre as relações sociais e imigrações.

Ötzi

Um fato inusitado, e ao mesmo tempo surpreendente, foi o ocorrido na Inglaterra após os exames com Ötzi, ou o Homem do Gelo, descoberto na fronteira entre a Itália e a Áustria, em 1991. O geneticista britânico Bryan Sykes descobriu que a irlandesa Marie Moseley, que havia realizado os exames em seu laboratório, era uma parente do famoso homem de 5 mil anos descoberto intacto na neve dos Alpes. A exemplo do que fez Sykes, que é professor e pesquisador da Oxford Univesity, na Inglaterra, e também autor de As Sete Filhas de Eva, entre outros, um número crescente de famílias têm realizado exames de DNA numa cruzada em busca de antepassados comuns, uma genealogia moderna baseada em um teste que não mente – ao contrário dos registros de batismo que por uma ou outra interferência, proposital ou não, pode apontar como pai alguém que, de fato, não o seja.

É o caso da operária alemã Anna Anderson (1900-1984), que dizia ser Anastácia Romanov, a filha desaparecida do czar Nicolau II, assassinado com a família durante a Revolução Russa, em 1918. Os exames de DNA provaram que Anderson não era a herdeira do trono russo desaparecida no alvorecer da era comunista. Outro caso famoso que ganhou as manchetes de jornal foi à confirmação de que as múmias dos dois bebês encontrados por Howard Carter na tumba de Tutancâmon (c. 1341-1323 a.C), em 1922, eram, de fato, filhos do faraó e sua rainha-irmã Anchesenamon. A genealogia intrincada da 18ª dinastia egípcia só não permitiu ainda esclarecer porque o DNA do faraó era tipicamente europeu.

Os resultados dos exames de Ötzi, Nicolau II e Tutancâmon, assim como os dados sobre Tibiriçá ou uma infinidade de outros nomes anônimos, estão disponíveis para consulta on-line, não é difícil descobrir que ligação temos com eles.

Por Rodrigo Trespach
Trecho selecionado da matéria Em busca dos antepassados, publicada na revista Leituras da História, n.72, ed. jun/2014, p.46-51. Também publicada no livro Cidade dos Ventos, em 2014.

Postamos aqui dois vídeos que explicam a migração humana pelo globo e também nossa ancestralidade comum. Vale a pena assistir!

 

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